close
Inteligência ArtificialLiteracia Digital

O que Vi na AI Week em Milão: 8 Sinais de que o Futuro Chega Mais Depressa do que Pensas

Já pensaste no que acontece quando sais da bolha da escola e vais ver, ao vivo, o que a Inteligência Artificial está a fazer no resto do mundo? Foi exatamente isso que eu fui fazer à AI Week, em Milão — uma das maiores feiras de IA realizadas na Europa — e voltei com a cabeça a fervilhar de ideias, algumas fascinantes, outras francamente assustadoras.

Neste artigo partilho contigo o essencial dessa visita: o que vi, o que experimentei e, acima de tudo, o que isto significa para ti enquanto professor, formador ou encarregado de educação. Porque a mensagem mais importante que trouxe de Milão é esta: a IA não é só a “brincadeira” de gerar textos e imagens — é uma transformação profunda do mercado de trabalho para o qual os nossos alunos têm de estar preparados.

Podes ver a partilha completa nesta live do meu canal:

Uma feira à escala do futuro

Para teres uma ideia da dimensão: seis palcos principais, cada um com capacidade para cerca de 2.000 pessoas, quase sempre cheios. A somar a isso, dezenas de palcos mais pequenos e centenas de expositores onde era possível interagir, experimentar e testar projetos de praticamente todas as áreas — retalho, finanças, banca, saúde, marketing, segurança.

As intervenções eram curtas (15 a 30 minutos), muito sintetizadas e de grande qualidade. E um pormenor que me agradou: a preocupação com a desumanização não é exclusiva da educação. Em quase todos os projetos se discutia a importância de manter o humano como validador dos resultados da IA. Enquanto essa preocupação existir, estamos no caminho certo.

A IA está a sair do ecrã e a entrar no mundo físico

Nós, professores, conhecemos a IA sobretudo na vertente do software: o que escrevemos no computador e o que a IA generativa nos devolve. O que vi em Milão é que a grande tendência é a passagem do digital para o físico: robôs, hologramas, avatares e computadores de bordo que comunicam connosco de voz para voz.

Uns são ainda muito robotizados, outros já surpreendentemente próximos da comunicação humana — e vão evoluir para interações com sensação de emoção. Isto vai ter um impacto enorme no mercado de trabalho: tarefas repetitivas e baseadas em informação serão substituídas rapidamente.

Robôs com missões reais (não apenas para dançar)

Os robôs humanoides e quadrúpedes são os “animadores” instagramáveis destas feiras — vi robôs a dançar e quadrúpedes com movimentos incrivelmente semelhantes aos dos animais (alguns até com sapatilhas calçadas!). Mas o objetivo final não é a diversão.

Estes equipamentos são treinados para missões críticas: locais de temperaturas extremas, terrenos agrestes, inspeção e monitorização industrial, busca e resgate. Fazem o que é perigoso ou impossível para os humanos, com mais segurança e eficiência. E atenção a esta previsão que ouvi por lá, numa intervenção do grupo Porsche: a massificação dos robôs humanoides começa por volta de 2028 e o impacto no dia a dia sente-se a partir de 2030. É já ali.

IA preditiva: prever a avaria antes de ela acontecer

Para além da IA generativa, a IA preditiva esteve muito presente. Um exemplo: um navio automatizado com um ecossistema digital que monitoriza continuamente toda a embarcação. O sistema analisa os dados, calcula probabilidades de avaria (daqui a 7 dias? 14 dias?) e alerta para uma intervenção em tempo útil — decidida por humanos ou automatizada.

O mesmo princípio aplica-se à indústria, onde a IA já analisa volumes gigantescos de informação técnica para criar novos materiais, ligas mais resistentes e protótipos de grande qualidade a uma velocidade que nenhuma equipa humana conseguiria igualar. E há ainda o conceito de Dark Factory: fábricas totalmente robotizadas onde nem sequer é preciso luz, porque os equipamentos se movimentam por sensores.

Digital Twin na saúde: o gémeo digital do médico

Uma das áreas que mais me impressionou foi a saúde. Estão a ser desenvolvidos digital twins — gémeos digitais — com aplicações que vão da formação de futuros médicos (que treinam o atendimento com pacientes-avatar em simulações muito realistas, com IA e realidade virtual) até à possibilidade de criar o gémeo digital de um médico, com as suas competências validadas, para assumir determinadas funções.

E aqui fica a minha reflexão: se os melhores cérebros da saúde europeia estão a investir tão profundamente nestes projetos, faz-me confusão que alguns professores ainda neguem a importância disto para a escola. Precisamos de criar hubs de IA nas escolas para testar, experimentar e perceber como tudo isto pode funcionar. Tal como na saúde, na educação nada está feito — e quem não der os primeiros passos terá dificuldade em dar os seguintes.

O confessionário com chatbot (e um alerta sério)

Um dos projetos mais polémicos era um confessionário onde as pessoas conversavam, de voz para voz, com um chatbot. Uma provocação de feira, sim, mas que me deixou um alerta importante: os estudos mostram que os nossos alunos estão a usar chatbots generalistas para falar das suas emoções e de temas íntimos — chatbots que não estão configurados nem contextualizados para a realidade cultural e social daquela criança ou jovem.

Este é um tema que nós, professores e pais, temos mesmo de acompanhar de perto.

Experiências imersivas: do cérebro em cores às pontes de Itália

Também experimentei coisas fascinantes. Um sensor que faz o mapeamento da atividade elétrica do cérebro e a devolve em cores — cada cor corresponde a um estado mental: calma, ansiedade, foco, stress. Fiz a experiência com rebuçados de sabores mutantes enquanto o sistema lia as minhas reações. Aplicações? Saúde mental, bem-estar, performance cognitiva e, claro, educação.

Testei ainda óculos de realidade aumentada que não tapam a visão: explorei um mapa interativo com pontes de Itália, peguei nos modelos 3D, acionei vídeos — tudo isto continuando a ver e a conversar com as pessoas à minha volta. E uma exposição imersiva sobre Klimt em realidade virtual, com acesso 360º aos detalhes da obra. Turismo, museus, história, educação: o potencial é enorme.

E a educação? A lição que veio da Holanda

Na área da educação destaco a apresentação de dois professores universitários holandeses que já trabalharam com mais de 2.000 professores em escolas de vários ciclos. A ideia deles não é levar as ferramentas por si — é mudar o design dos percursos de aprendizagem.

Um exemplo concreto com o NotebookLM, ferramenta que já exploramos muito por cá: em vez de ser apenas o professor a criar os recursos e a partilhá-los (iguais para todos), treinar os alunos para criarem os seus próprios recursos, adaptados às suas necessidades e gostos — uns preferem síntese, outros desenvolvimento; uns o colorido, outros o monocromático. Com prompts bem elaborados, cada aluno vai buscar ao recurso exatamente aquilo de que precisa.

Outro exemplo: os alunos criavam imagens com IA a partir de uma pesquisa curta sobre um tema (o início dos Romanos, na disciplina de História). O primeiro resultado vinha errado — a IA devolvia logo grandes impérios. O professor questionava, orientava a investigação, e o aluno melhorava progressivamente o resultado. O erro da IA transformado em percurso de aprendizagem. Simples e brilhante.

O que levo (e o que te deixo) desta viagem

A Europa está atrasada em relação aos Estados Unidos e à Ásia. Portugal está ainda mais atrasado. E é precisamente por isso que a integração da IA na educação e a criação de currículos associados a esta tecnologia são urgentes.

As carreiras e as profissões vão mudar muito, e muito mais depressa do que esperamos. É na escola que esta preparação tem de acontecer — e, embora não dependa só de nós, depende muito de nós. Leva estas ideias para a sala de aula, para as reuniões com colegas, para as conversas com os pais dos teus alunos. Falar sobre o futuro do mercado de trabalho já é, em si, um ato pedagógico.

Se este conteúdo te foi útil, partilha o artigo e o vídeo com outros colegas — e subscreve o meu canal do YouTube, onde todas as semanas trago conteúdos sobre IA e tecnologia na educação.

Boas Aprendizagens!

Tags : AI WeekFuturo do TrabalhoIA na EducaçãoInteligência Artificialrealidade virtualRobótica

Leave a Response